quinta-feira, 10 de maio de 2018

Australiano de 104 anos sem doença terminal opta pelo direito de morrer

Goodall foi impedido de procurar ajuda para pôr fim à sua vida na Austrália, então foi obrigado a viajar para a Suíça

09/05/2018 - Um cientista australiano de 104 anos desatou a cantar nesta quarta-feira (9) quando disse, em uma sala cheia de jornalistas, que estava ansioso para finalmente ter autorização para acabar com a sua vida. David Goodall não tem uma doença terminal, mas diz que sua qualidade de vida piorou significativamente nos últimos anos e que ele quer morrer.

— Eu não quero mais continuar com a vida — disse Goodall às dezenas de jornalistas e equipes de televisão que lotaram uma pequena sala em um hotel na cidade de Basiléia, no norte da Suíça, para ouvi-lo falar.

— Estou feliz por ter a chance amanhã de terminá-la, e agradeço a ajuda da profissão médica aqui para tornar isso possível — acrescentou.

Quando perguntado se ele havia escolhido alguma música para ouvir em seus momentos finais, disse que não havia pensado sobre isso.

— Mas se eu tivesse que escolher alguma coisa, eu acho que seria o movimento final da nona sinfonia de Beethoven — disse ele, antes de cantar um verso da Ode à Alegria, em alemão, e receber um forte aplauso.

Goodall foi impedido de procurar ajuda para pôr fim à sua vida na Austrália, então foi obrigado a viajar para a Suíça, algo que ele disse que ressente.

— Eu preferiria tê-la (terminado) na Austrália, e lamento muito que a Austrália esteja atrás da Suíça quando se trata de leis sobre o direito de morrer — afirmou.

O cientista de 104 anos disse que espera que o interesse generalizado em seu caso estimule a Austrália e outros países a repensarem suas legislações.

— Eu gostaria muito de ser lembrado como um instrumento para libertar os idosos da necessidade de perseguir com sua vida sem distinção — disse.

Um instrumento de mudança?
O pesquisador honorário da Universidade Edith Cowan de Perth deixou a Austrália há uma semana e parou em Bordeaux, na França, para ver a família antes de chegar à Basiléia, na segunda-feira (7). Ele falou aos jornalistas ao lado de Philip Nitschke, o fundador da Exit International, que o ajudou a fazer sua última viagem, e Moritz Gall, da Eternal Spirit, a fundação suíça que concordou em ajudá-lo a morrer. Goodall garantiu rapidamente um encontro com a fundação depois que tentou cometer suicídio por conta própria, no início do ano.

— Teria sido muito mais conveniente para todos se eu tivesse conseguido, mas infelizmente falhou — disse sobre a tentativa de suicídio.

Mas ele disse que estava feliz por terem lhe oferecido a "opção suíça", já que ele pôde ver a maior parte de sua grande família, que está espalhada por vários países, durante a preparação para o seu último dia.

O suicídio assistido é ilegal na maioria dos países e era proibido na Austrália, até que o estado de Victoria se tornou o primeiro a legalizar a prática, no ano passado. Mas essa legislação, que entrará em vigor em junho de 2019, só se aplica a pacientes terminais de mente sadia e com uma expectativa de vida inferior a seis meses.

De acordo com a lei suíça, entretanto, qualquer pessoa que tenha uma mente sã e que tenha, durante certo período de tempo, expressado um desejo consistente de encerrar sua vida, pode solicitar a chamada morte voluntária assistida.

A Eternal Spirit, uma das várias fundações da Suíça que ajudam pessoas que querem pôr fim às suas vidas, disse nesta quarta-feira (9) que Goodall passou por duas visitas médicas com profissionais diferentes desde que chegou à cidade.

Sem hesitação
"Esta noite a diretoria da fundação estudará os documentos e também julgará o desejo de morrer de David Goodall", disse por e-mail Erika Preisig, chefe da Eternal Spirit, acrescentando que a resposta "provavelmente" seria sim.

Mas Gall enfatizou aos repórteres que, até o último minuto, Goodall teria a opção de voltar atrás, caso mude de ideia. Perguntado se ele tinha alguma hesitação ou dúvida, o homem de 104 anos disse:

— Não. Nenhuma.

Na morte assistida, a pessoa deve ser fisicamente capaz de realizar a ação final por conta própria. A maioria das fundações suíças pede aos pacientes para beberem pentobarbital sódico, um sedativo eficaz que, em doses fortes o suficiente, faz com que o músculo cardíaco pare de bater.

Como a substância é alcalina e queima um pouco quando engolida, a Eternal Spirit optou por infusões intravenosas. Um profissional prepara a agulha, mas cabe ao paciente abrir a válvula que permite que o barbitúrico de curta duração se misture com uma solução salina e comece a fluir em sua veia.

Goodall disse que espera que sua morte aconteça por volta do meio-dia de quinta-feira (10).

A Exit International e a Eternal Spirit estão defendendo que todos os países introduzam sistemas semelhantes ao da Suíça, permitindo que as pessoas escolham morrer "com dignidade".

— Este é um direito humano, poder tomar uma decisão feita por um adulto racional para dar esse passo — disse Nitschke. Fonte: Gaúcha ZH.

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