sábado, 11 de maio de 2019

Do tempo em que minha mãe compartilhava carros comigo


Nossa vida pode ser relatada através dos carros que passaram por cada um. Eu não sou diferente. Usei muito os carros da minha mãe. Quando eu tinha 5 anos, meu pai usava uma Pickup Fargo azul escura, lá pelo final dos anos 50. Acho que era ‘58. Tinha câmbio na coluna da direção, 3 marchas, tração traseira. Era usada para trabalhar, a serviço da secretaria do obras do RS. Não existia motorista específico, cabia ao usuário dirigi-la e fazer toda a manutenção.

Lembro que uma certa vez, à tardinha, indo por uma estrada interiorana, entre Pinheiro Machado e Piratini, ficamos num atoleiro, eu e meu pai, era inverno frio como habitual em Pinheiro Machado. Passamos a noite inteira atolados, sem luz, só uma lanterna com três pilhas amarelonas, gastas e deixamos minha mãe precupadíssima. De manhã cedo, eis que surgem os faróis de uma patrola da Prefeitura, que ficam nos cantos da capota, brilhando. Motivo de alegria no interior da Fargo. Foi, meio que tardiamente nossa salvação, que tardou mas não falhou. Minha mãe começou aprender a dirigir nesta Fargo, e dirige até hoje, aos 85 anos.

Depois foi uma pickup rural amarela. Foi o 2o carro da prefeitura de Pinheiro Machado, cidade onde nasci e meu pai virou prefeito pelo antigo PTB do Brizola. Não tenho muitas lembranças deste carro, mas tenho de um Mercedes caminhão tombadeira azul, este o 1o veículo pertencente à prefeitura, comprado de 2a mão. Aí conhei o Maneco, mecânico da Prefeitura, meu idolo. Eu queria nesta época ser mecânico, não sei se era pela perspectiva de usar macacão ou viver sujo de graxa.

Depois nos mudamos para Porto Alegre, pai, mãe e minha irmã Paula, já falecida. Aí meu pai, então engenheiro da Petrobras, entrou num grupo de consórcio, criado pelo pessoal da Petrobras e comprou uma DKW Vemaguet ano 63, a porta abria para a frente, beje, capota branca, tração dianteira, 4 marchas à frente. Sistema elétrico de 6 volts. Tinha um rádio valvulado com reator para poder alimentar com corrente alternada as válvulas. Quando ligava gerava um ruído característico.
Com essa DKW fomos ao Rio de Janeiro e passamos 3 meses lá, na casa de meu tio, no Rio Comprido, meus pais, minhas duas irmãs Paula e Bárbara. Nunca esqueço que num trecho da viagem, entre Curitiba e São Paulo, provavelmente na serra do Café, minha mãe comentou que aquela região era um “deserto”, quando minha irmã Bárbara, de pronto retrucou: - Eu não vi nenhum camelo aqui… Ficamos com a DKW 10 anos, e meu pai insistia em ficar mais tempo com ela. Dizia que ela tinha chassis de aço, não era monobloco, por isso mais durável, base mais rígida. Afinal, foi um dos últimos carros com chassis de aço fabricados no Brasil. Bem, minha mãe aprendeu a dirigir definitivamente com essa DKW, e lembro que a 2a marcha dificilmente engatava sem arranhar a caixa. Foi vendida para um cara de Rio Grande.

Em ‘69, compramos uma saboneteira azul escuro (VW 1600 4 portas sedan) para minha mãe. Foi comprada na Unidos da Lima e Silva, onde hoje é um Zaffari. Foi um avanço, pois tinha brucutu para limpar o pára-brisa e rádio transistorizado. E o pisca-pisca voltava automaticamente. No centro da direção tinha um brasão, onde estava escrito “Paulistarum terra mater”. Não tenho muitas lembranças deste carro, só que logo depois, creio que ante os elogios ao carro, que inegavelmente era superior à DKW, um tio, irmão do meu pai, também comprou uma saboneteira.
Em 73 trocamos a soboneteira por uma Variant azul calcinha que logo apresentou problemas de caixa e tocamos por uma nova Variant amarelo ovo, comprada em São Jerônimo, onde meu pai trabalhava, na implantação da antiga Aços Finos Piratini, hoje privatizada, com o nome Gerdau. Com esta Variant participei de minha primeira batida. O cara bêbado, cheirava a vinho, não respeitou a preferencial, que era minha e batemos, mas se eu tivesse mais experiência e malícia, poderia ter evitado.

Resgatei numa madrugada de 3a feira um amigo detido pela Polícia Federal depois da aula de Geometria Analítica da faculdade de engenharia. Normalmente nas saídas das aulas de 3as e 5as à noite, na volta para casa da UFRGS até a Auxiliadora onde morava, passava no parque Moinhos de Vento (Parcão) onde se juntava o que hoje chamam de “galera” pra bater um papo. Onde hoje tem um edifício havia um terreno aberto onde estavam instalados trailers, incluindo o Torta de Panela, que parece, na época, estaria traficando. Bem passando de Variant amarelo ovo na frente do bochincho, achei estranho que estivesse cheio de carros e pouquísimas pessoas. E como não encontrei a “galera”, me fui para baixo da cobertas, pois era inverno.

Estou dormindo e toca o telefone. Era a mãe de um colega de faculdade me indagando se eu sabia do fulano. Achei estranho, me vesti de novo e na Variant amarela fui até a casa do meu amigo, que ficava a um quarteirão de minha casa e peguei a mãe preocupada.

Depois de idas e vindas e informações colhidas no Torta de Panela, concluimos que ele, nascido em Curitiba, e mais um bando haviam sido conduzidos coercitivamente para a Polícia Federal, que ficava na Avenida Paraná. Chegando à Polícia Federal, pela Av. Cairú, parecia uma saída de baile, gente em grupos caminhando pelo meio da rua e calçadas. Uma legítima saída de festa, afinal todos tinham sido liberados. Em meio à turba, encontramos meu amigo e levamos mais uns 5 dentro da Variant, inclusive na cachorreira, até o Parcão para buscarem seus carros. Com essa Variant fui a Santa Cruz do Sul para o estágio do CPOR.

Fuca da Marília. Ela tinha um “fusca” verde chamado de treme-treme. Fomos com ele a um churraso grego num sítio pela região de Arroio dos Ratos e prestamos socorro a um amigo com uma possante Caravan, que tinha um mau contato no negativo do borne da bateria e parava repentinmente por falta de faísca. Apesar de tremer muito, nunca nos deixou na mão.

Com este fuca participei do meu segundo acidente, na Av Maracanã no Rio de Janeiro, novamente poderia ter sido evitado, se eu reduzisse a marcha antes de acreditar em sinal verde. Fomos parar eu e Marília no Hospital Miguel Couto. Felizmente sem sequelas, apenas um mês depois meu primo médico extraiu um pedaço de vidro da cicatriz em meu queixo.

Variant II foi o próximo passo. Eu chamava de Bosta II. Ainda mais depois que um cara de Kombi bateu atrás da Bárbara, ela parada com a sinaleira fechada, na esquina da Plínio com a Carlos Gomes. Com essa Variant II fiz várias viagens, acampei em Bombinhas e praia da Pinheira, ambas em SC. Ficamos, eu e a Marília, que veio a ser minha atual esposa, de dar carona para umas amigas, que prepararam guloseimas farináceas, que acomodei no porta malas dianteiro. O tanque de gasolina era na frente e vazou com tanque cheio, contaminando toda a comida, que teve que ser jogada fora. Uma pena!
Antes da crise do petróleo foi a vez do Opala 4100, cor tijolo, Standard, 4 marchas, câmbio no túnel, 2 portas, pneus sem câmara tipo linguiça. O carro não tinha nada que chamasse a atenção, mas motor 4100. Nesta fase eu era meio que metido a “boy”. Na saída de uma festa do Lindóia, estava na carona com um amigo meu que estava namorando uma guria. Um pretendente da guria, com um Opala todo “embandeirado” (rodas especiais, e uns floreios lá) decidiu fazer um charme e colou em nosso lado na Assis Brasil e começou a acelerar em aberto, meio que propondo um “pega”. Como eu estava bem calçado topei, cometendo uma irresponsabilidade. Nem preciso dizer o que aconteceu. Um Opala 4100 contra um 2500! Mas esse era o carro do meu pai.

O último carro que compartilhei com minha mãe foi a Nissan Livina dela. Tínhamos que ir ao Uruguay, na fronteira, comprar mirapex ER, eu e um amigo parkinsoniano como eu, e as respectivas esposas, ficamos no hotel de trânsito de militares em Jaguarão – RS, e o grande porta-malas fez a diferença diante das compras nos frees shops uruguayos.

Bem esses foram os carros da minha mãe que compartilhei. Obrigado minha mãe, por compartilhar comigo teus carros. E FELIZ DIA DAS MÃES!

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