sábado, 10 de junho de 2017

VACINAÇÃO QUESTIONADA

CAMPANHAS DE IMUNIZAÇÃO TÊM CONQUISTAS HISTÓRICAS PARA A SAÚDE MUNDIAL, AINDA ASSIM, GRUPOS DUVIDAM DA NECESSIDADE DESSA PRÁTICA
10 de junho de 2017 | Assustados ao verem sintomas como “necrólise epidérmica tóxica”, “hemorragia gastrintestinal” e “nefrite intersticial” serem descritos como possíveis efeitos de alguma vacina ou medicamento, alguns pais estão optando por uma abordagem mais “natural” para prevenir os filhos de doenças. Esses grupos citam o livre arbítrio para escolher o que consideram melhor e pregam que a própria vacinação, feita atualmente, seria a causa de muitas enfermidades.

Os médicos afirmam que, ao não seguirem o calendário de vacinação definido pelo Ministério da Saúde – concentrado em crianças até quatro anos, mas prevendo doses para a vida toda –, esses pais podem estar colocando em jogo um trabalho histórico de prevenção de doenças no país e no mundo. Adotando recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), o calendário nacional, citado como um programa público de qualidade, é tido como responsável pelo controle de doenças como poliomielite, difteria, rubéola e tétano.

Na Europa, um surto de sarampo foi registrado em pelo menos 14 países e contaminou milhares de pessoas desde o início do ano. O contágio em massa de uma doença até então considerada praticamente controlada foi em parte atribuído por autoridades de saúde a movimentos “antivacinistas”. A incidência de sarampo foi confirmada em alguns dos países mais ricos do continente, como Alemanha, França, Itália e Suíça. Só na Romênia, foram 3,4 mil casos desde 2016, com 17 mortes.

Mais do que uma decisão individual ou algo que cabe aos pais definirem se querem ou não dar aos filhos, a vacinação é considerada questão de saúde pública. Uma queda acentuada, ainda que gradual, na cobertura vacinal poderia significar que males como o sarampo passassem a circular novamente entre as crianças no mundo todo – algo que, defendem as autoridades em saúde, poderia ser evitado com uma simples injeção.

“O Programa Nacional de Imunizações [...] propiciou resultados importantes como, por exemplo, a erradicação da varíola, o controle da poliomielite e a eliminação do sarampo e da rubéola congênita como problemas de saúde pública. Para garantir estes últimos avanços e conquistar resultados semelhantes contra doenças cujas vacinas foram recentemente incluídas no calendário nacional, é essencial a manutenção (da vacinação)”, afirmou, em nota sobre a atuação dos “grupos antivacina”, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Sem controle, doenças podem voltar a aparecer

Na primeira campanha nacional de vacinação, em 1904, a cidade do Rio de Janeiro virou quase um campo de batalha. Devido a uma lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola, milhares de pessoas se revoltaram, incorrendo em uma insurreição popular que ficaria conhecida como a Revolta da Vacina. A Cidade Maravilhosa era, então, um antro de doenças: peste bubônica, febre amarela e varíola assolavam a população e afastavam quaisquer visitantes de fora.

Executado “a qualquer preço”, o projeto sanitário do médico Oswaldo Cruz, feito com métodos autoritários e vacinação à força, contribuiu para a revolta em uma época em que não se sabia a importância e os efeitos da imunização. Ainda que por vias tortas, o método deu certo. No ano do levante, cerca de 3,5 mil pessoas morreram de varíola. Dois anos depois, o total caiu para nove.

– A vacinação é o ato de saúde pública com maior impacto na sociedade – diz o pediatra Benjamin Roitman, coordenador da Equipe de Vigilância em Doenças Transmissíveis da Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre.

A varíola é hoje considerada erradicada no mundo. Em 1973, o Brasil recebeu certificação internacional da erradicação da doença, e em 1980 teve fim a obrigatoriedade da vacinação contra esse mal no país. Mas ver tomar forma uma versão moderna da Revolta da Vacina, com potencial de trazer problemas semelhantes novamente à tona é algo que tem preocupado as autoridades em saúde.

Há muitas doenças que ainda circulam pelo mundo, mas em diversos países, como o Brasil, estão em uma fase considerada controlada. É o caso de coqueluche, tuberculose e sarampo: ainda se ouvem casos de pessoas que apresentam seus sintomas, mas elas já não se espalham mais indiscriminadamente. Quando isso ocorre, geralmente estão envolvidos no problema questões de saneamento básico, fatores ambientais ou o vaivém entre países.

– Algumas correntes mais holísticas ou ditas alternativas têm a visão, às vezes até apoiadas por médicos, de que a vacina não é necessária – diz Marilina Bercini, diretora do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS) da Secretaria Estadual de Saúde. – Só que essas pessoas vivem em uma chamada “imunidade de rebanho”: quando você tem um grande grupo vacinado, aqueles que não foram imunizados acabam se protegendo – complementa Roitman.

Atento à atuação de grupos de pais contra a vacinação, o diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, João Paulo Toledo, avalia que a situação acende um alerta no país. Dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), o governo observa queda no índice de cobertura de alguns imunizantes. No ano passado, por exemplo, a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, teve adesão de apenas 76,7% do público-alvo.

Como funciona a imunização

A lógica da vacina é tentar estimular o organismo a produzir anticorpos sem que ele precise ter ficado doente antes. O que a dose faz é reproduzir o efeito de uma doença, evitando que a pessoa sofra as consequências que sentiria se fosse naturalmente contaminada. Há casos, porém, em que reações adversas acabam sendo registradas durante esse processo.

Uma vacina é feita a partir de organismos enfraquecidos, mortos ou atenuados, assim diminuindo seus riscos. Quando o corpo é vacinado, o organismo detecta a substância presente na dose e produz anticorpos, tornando o corpo imune à doença e evitando que ela apareça no futuro. Em alguns casos, é preciso tomar doses de reforço para melhorar essa reação orgânica. Fonte: Zero Hora.

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