terça-feira, 23 de maio de 2017

Idosos com demência: o que fazer com perguntas repetidas e acusações

Terça-feira, 23/05/2017 - Já escrevi sobre dicas para cuidadores conseguirem se proporcionar pequenos momentos de relaxamento. Mas as “horas de recreio” são poucas, ao passo que as dificuldades são muitas – e uma delas, especialmente desafiadora, é como manter a comunicação com o idoso com algum tipo de demência ou Alzheimer. O que fazer com as perguntas que se repetem, como reagir diante de acusações infundadas, o que responder quando pedem para ir para casa mesmo estando dentro dela. Nesse exercício de dedicação e paciência, opte por usar frases curtas, diretas, que serão mais facilmente assimiladas. Não se pode esquecer que o declínio de cognição afeta a habilidade para ouvir e manter uma conversa normal. Aqui vão dois exemplos:

1) Na hora da refeição, o mais eficiente é dizer: “hora de macarronada com almôndega, vamos para a cozinha!”. E não algo como: “você está com fome? Já faz algum tempo que não se alimenta e você sempre gostou de espaguete, não? Que tal depois darmos uma voltinha para ajudar na digestão?” – o volume de informações é grande e dá margem a uma reação negativa da pessoa.

2) Numa saída para uma consulta médica, o padrão também deve ser de concisão: “temos médico agora... Tome seu agasalho, estamos saindo”. O modo mais complicado, que daria margem a atrasos, seria: “hoje vamos ao consultório do dr. Fulano, lembra que a consulta já está marcada há mais de um mês? Está fresquinho, melhor pôr este casaco para não se resfriar...”

Os comportamentos de repetição frequentemente são causados por estresse, ansiedade ou medo. Idosos repetem as perguntas porque não se sentem seguros em relação ao que está acontecendo. Não é que precisem da informação, necessitam mesmo é de serem tranquilizados, por isso a resposta deve ter esse poder de trazer segurança. Novamente, frases curtas farão mais sentido – se alguém lhe perguntar várias vezes que horas são, o melhor é só dar a hora, sem tentar acrescentar que isso já foi dito há poucos minutos. Outra possibilidade é buscar uma distração, como um lanchinho. Dependendo do estado do paciente, se ele ainda puder colaborar, pode ser incumbido de uma pequena tarefa.

Da mesma forma, se o idoso pede para ir para casa, essa é uma demanda para ser reconfortado. Portanto, aferre-se a este objetivo e inclusive se prepare para ser criativo, porque nem sempre o que funcionou uma vez dará certo na ocasião seguinte. O fundamental é se aproximar com calma, porque o tom relaxado vai ajudá-lo a se sentir mais seguro. O contato físico também ajuda: um abraço, ou um aperto de mão, pode diminuir o estresse – das duas partes. Evite explicações: dizer que está em casa, ou que há meses mudou-se para seu apartamento porque não podia mais viver só, não vai ajudar. A melhor estratégia é concordar e redirecionar a situação. Você pode dizer que esta é uma boa ideia e que em breve vocês irão, assim que acabar de lavar os copos ou algo trivial e dentro da rotina. Aproveite para dar outro rumo à atenção do doente, sugerindo uma atividade que seja agradável e o distraia, como observar o movimento da janela, tomar um suco. O site dailycaring.com propõe ainda que se peça à pessoa para falar da sua casa, encorajando-a a compartilhar sentimentos e memórias positivas, com perguntas como: “sua casa parece muito agradável, me conte sobre ela”; “qual vai ser a primeira coisa que você vai fazer quando chegar em lá?”.

Acusações infundadas machucam e são difíceis de lidar, mas não se deve perder o controle. Ponha-se no lugar de quem busca um objeto, mas não consegue achá-lo – o cérebro pode levá-lo a acreditar que foi roubado. Em primeiro lugar, não tome como algo pessoal; também não discuta ou tente usar argumentos racionais. Deixe que ele fale, expresse seus sentimentos, enquanto você mantém um tom relaxado e acolhedor. Assim será mais fácil propor algo que o distraia. Uma providência simples é ter itens em duplicata: se a carteira é o objeto que mais “desaparece”, compre outra igual e se prontifique a ajudar a encontrá-la. Em vez de tentar corrigir ou trazer o idoso de volta ao mundo real, exercite mais uma vez a compaixão e tente entrar na realidade dele. Fonte: Globo G1.

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