sábado, 8 de agosto de 2015

Venda de tecido fetal gera rixa nos EUA

08/08/2015 - Vídeos divulgados por um grupo antiaborto chamaram a atenção recentemente para uma prática pouco conhecida: a compra, a venda e o uso em pesquisas de tecidos fetais adquiridos de clínicas de aborto.

O grupo responsável pelos vídeos acusou a organização Planned Parenthood dos EUA de vender tecidos fetais para fins lucrativos, o que é ilegal.

A Planned Parenthood rejeita a acusação.

Cientistas de grandes universidades e laboratórios governamentais vêm usando tecidos fetais há décadas, sem fazer alarde.

As empresas que obtêm o material fetal de clínicas e o vendem a laboratórios existem em uma área legal cinzenta. As leis federais dos EUA dizem que elas não podem lucrar com o próprio material fetal, mas a lei não especifica quanto elas podem cobrar pelo processamento e transporte desses materiais.

Os Institutos Nacionais de Saúde gastaram US$ 76 milhões em 2014 com pesquisas que usaram tecido fetal, com doações feitas a mais de 50 universidades.

Cientistas dizem que o tecido fetal é uma fonte riquíssima e singular das células-tronco que estão na origem de tecidos e órgãos do corpo. Segundo eles, o estudo de seu desenvolvimento pode fornecer indícios sobre como podem ser "cultivados" tecidos para substituir partes do corpo que entraram em falência.

Para os pesquisadores, com o tempo é possível que células-tronco derivadas de tecidos adultos possam tomar o lugar dos tecidos fetais, mas a ciência ainda não é capaz de fazer isso.

Os tecidos fetais só podem ser usados com o consentimento da mulher que realiza um aborto.

Alguns pesquisadores recebem os tecidos de clínicas de aborto existentes em suas próprias instituições ou de bancos de tecido mantidos por algumas universidades. Muitos compram o tecido de empresas que atuam como intermediárias.

Essas empresas pagam taxas pequenas –geralmente US$ 100 ou menos por espécime– a provedores de aborto, como a Planned Parenthood, que afirmam cobrar apenas o necessário para cobrir seus custos.
As empresas então processam os tecidos e os vendem a cientistas a preços mais altos, que refletem o processamento.

De acordo com Arthur Caplan, diretor da divisão de ética médica do Centro Médio NYU Langone, em Nova York, os valores –que podem chegar a milhares de dólares por um frasco minúsculo de células– não infringem a lei.

Muitos cientistas compram tecidos fetais de duas empresas da Califórnia.

A StemExpress, empresa de Placerville, Califórnia, fundada há cinco anos, descreve-se como "a maior provedora global de tecido fetal e sanguíneo materno", dizendo também que oferece "descontos especiais para a comunidade acadêmica".

Cate Dyer fundou a StemExpress com US$ 9.000. Segundo informação publicada em agosto de 2014 na revista "Inc.", a receita da empresa era de US$ 2,2 milhões. Dyer disse que o material fetal é responsável por 10% dos negócios da empresa. Os tecidos fetais já teriam sido usados em estudos de leucemia, linfoma de Hodgkin e doença de Parkinson.

A outra grande provedora de tecidos fetais é a Advanced Bioscience Resources Inc., ou ABR, organização sem fins lucrativos que tem 12 funcionários e vendas recentes de US$ 1,4 milhão, segundo relatório da Dun and Bradstreet. Uma lista de preços de 2013 da firma cita valores de US$ 300 por espécime de tecidos de um feto de segundo trimestre e US$ 515 no caso de um feto de primeiro trimestre.

A enfermeira e presidente da ABR Linda Tracy disse em e-mail que os preços cobrados pela empresa refletem o tempo, esforço e espaço necessários para a obtenção dos tecidos fetais. Documentos da ABR informam que seus produtos já foram usados em pesquisas sobre o HIV.

George J. Annas, professor de direito e bioética na Universidade de Boston, declarou: "O que está sendo feito provavelmente está dentro da lei, mas o Congresso não vai gostar".

Com relação às empresas, ele disse: "Elas não vão gostar de saber que tudo isso está sendo comentado em público. Isso coloca seus negócios em risco. Mesmo que o que elas estão fazendo seja legal, as leis podem facilmente mudar." Fonte: Folha de S.Paulo.

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