segunda-feira, 27 de julho de 2015

As falsas promessas no tratamento de Parkinson

Especialista alerta para as falsas promessas que tratamentos com células-tronco oferecem a pacientes com doença de Parkinson, uma doença que é, até então, incurável.

26 DE JULHO DE 2015 - A doença de Parkinson, apesar dos recentes avanços científicos na identificação do desenvolvimento e no tratamento da doença, ainda é incurável. E é esse fato que é tratado pelo biólogo molecular Alysson Muotri neste texto. Confira os principais trechos do artigo do especialista.

“Todos sabemos que a chance de ganhar na loteria é muito pequena. Mesmo assim, muitos continuam apostando com a esperança que um dia a sorte estará ao seu lado, afinal alguém sempre ganha. Agora, imagine que, sem saber, você aposte em um sistema de loteria que foi alterado para que o seu número nunca seja sorteado. Essencialmente, você está jogando dinheiro fora por falsa esperança. Da mesma forma, muitos pacientes com doenças incuráveis, que se aventuraram em clínicas que oferecem tratamentos não comprovados com células-tronco, fazem a mesma coisa.

O problema é mais evidente com doenças neurodegenerativas, como a ELA [Esclerose Lateral Amiotrófica] ou a doença de Parkinson, pois são condições agressivas que afetam a qualidade de vida do indivíduo muito rápido. Recentemente, proliferaram clínicas que oferecem tratamentos com supostas ‘células-tronco’ retiradas da gordura do próprio paciente para aliviar o sintoma de portadores da doença de Parkinson.

Mas essa oportunidade tem um preço bem alto: cada injeção não sai por menos de 20 mil dólares [e com certeza serão recomendadas diversas aplicações]. Infelizmente, não existe nenhuma evidência científica que esse tipo de tratamento funcione.

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa incurável, que afeta milhões de brasileiros e indivíduos em todo o mundo. Sintomas incluem tremores, redução dos movimentos e rigidez muscular. Não existe cura para o Parkinson. Existem algumas drogas que podem auxiliar tipos genéticos/familiares de pacientes, mas nada para a grande maioria dos casos esporádicos. Melhoras significativas no quadro clínico podem aparecer após estimulação profunda no cérebro, mas esse é um procedimento bem invasivo e aconselhado em alguns casos mais severos.
Existem algumas vacinas sendo testadas em ensaios clínicos. Os resultados preliminares sugerem que essa estratégia teria eficácia restrita devido a má penetração dos anticorpos no cérebro e ao estágio avançado da doença [em geral, vacinas funcionam melhor como medida preventiva, porém não existem marcadores biológicos para Parkinson no momento].

Como a doença começa?
A doença de Parkinson aparece quando um subtipo de neurônio que produz dopamina [um importante neurotransmissor no cérebro], localizados em uma região do cérebro que controla os movimentos, morre por razões ainda desconhecidas. Pois bem, células da gordura não têm a capacidade de se especializar em neurônios dopaminérgicos, portanto, jamais conseguirão contribuir para retardar os efeitos do Parkinson dessa forma. Além disso, elas provavelmente nem conseguirão chegar no cérebro, quanto mais na região afetada.

Mas e os vídeos testemunhais e emotivos, de pacientes que receberam as células de gordura e melhoraram? Após assistir diversos vídeos, você conseguirá observar um padrão: os pacientes, em geral, gravam seus depoimentos logo após o tratamento, não existe acompanhamento a longo-termo e também não existe publicação dos resultados em revistas científicas especializadas, o que inviabiliza a análise imparcial por outros cientistas.

Futuro promissor.
Felizmente, o futuro é promissor para os indivíduos com a doença de Parkinson. Uma aposta plausível vem do uso de células-tronco de pluripotência induzida, ou células iPS. Essas células, reprogramadas a partir de células somáticas [da pele, do sangue, do dente e etc.] do próprio indivíduo, podem se especializar em diversos tipos celulares. A partir das células iPS, pode-se então criar quantidades infinitas de neurônios dopaminérgicos do próprio paciente para um eventual transplante na região exata do cérebro humano.” (AG) Fonte: O Sul.

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